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A MUSCULAÇÃO E OS ANABOLIZANTES

José Maria Santarem *

Comecei a praticar exercícios com pesos em 1.966, com dezesseis anos de idade - ainda não se usava o termo “musculação”. Profundamente impressionado pelos resultados e pelo prazer do treinamento com pesos, passei a conviver com outros praticantes da modalidade. A saúde e o bem estar da maioria deles chamavam a atenção, principalmente no caso dos mais velhos, que não aparentavam as idades que tinham. Por outro lado, muitos médicos afirmavam que os exercícios com pesos não eram saudáveis e muitos profissionais de educação física divulgavam que o desempenho esportivo era prejudicado com a sua prática. Nenhuma dessas afirmações parecia ter sintonia com a prática e quase não havia trabalhos científicos sobre o assunto. Assim sendo, estávamos diante de preconceitos. A partir dessa situação, resolvi que o objetivo profissional da minha vida seria investigar as verdades relacionadas ao treinamento com pesos e divulga-las para a população, escolhendo a carreira de medicina. Na área do esporte, não tendo conseguido nível técnico adequado para competir, passei a colaborar com a modalidade como dirigente tendo exercido em mais de trinta anos de atividades os cargos de presidente de federação estadual, diretor nacional de arbitragem e diretor nacional de cursos técnicos.

No final da década de 60 e início da década de 70, os anabolizantes hormonais já estavam disponíveis entre nós e alguns atletas passaram a utilizá-los. Embora os progressos musculares desses primeiros usuários fossem evidentes, chamava a atenção que muitas pessoas não apresentavam progressos significantes mesmo utilizando drogas. Por outro lado, muitos praticantes veteranos da era pré-anabolizantes haviam conseguido grandes volumes musculares. Essa observação estava em sintonia com o conhecimento que temos hoje: o grande fator de diferenciação entre atletas é a sua constituição genética. Nas décadas de 80 e 90 havia um consenso de que os anabolizantes tinham riscos para a saúde. Todos nós conhecíamos casos de pessoas que tiveram a saúde comprometida. Os atletas que optavam por correr riscos o faziam por razões do foro íntimo e pelo menos no meu grupo, sempre foram respeitados nessa opção. Para fazer um paralelismo com outras situações, as pessoas que optam por correr riscos em modalidades esportivas perigosas também costumam ser respeitadas nessa decisão. Por outro lado, nas competições da IFBB (International Federation of Body Builders) as regras eram claras: quem fosse pego seria punido. Na qualidade de médico sempre desaconselhei o uso de drogas na ausência de doenças, mas também era respeitado nessa posição. Os anabolizantes não nos dividiam: éramos todos irmanados na prática do treinamento com pesos.

O uso de anabolizantes cresceu muito nas últimas décadas e hoje o número de pessoas que os utilizam para fins estéticos ultrapassa em muito o número de atletas também usuários. A musculação se tornou um grande mercado e atualmente vejo com tristeza que na área da musculação está ocorrendo uma divisão do tipo “nós e eles”. De um lado estão os que divulgam que o uso de anabolizantes é seguro quando bem orientado. Do outro lado estão os que pensam diferente, frequentemente qualificados pelos primeiros como desinformados ou preconceituosos. Entre estes estão associações médicas nacionais e internacionais que se posicionaram no sentido de que os derivados hormonais somente podem ser receitados quando existe diminuição das suas produções fisiológicas e mesmo assim quando existirem manifestações clínicas provocadas pelas suas deficiências. Entre essas associações estão o Conselho Federal de Medicina do Brasil, a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabolismo, a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia e o American Board of Medical Specialties.

As razões para explicar os posicionamentos das associações médicas nada têm de preconceituosas. As evidências atuais não são conclusivas sobre os reais riscos à saúde dos esteroides anabolizantes, mas a possibilidade de efeitos colaterais graves no uso de longo prazo é real. Doses altas e associações com outras drogas são reconhecidas como mais perigosas, mas ainda mais importante é a suscetibilidade individual, que não pode ser controlada. Não há dúvida de que existem maneiras menos arriscadas para utilizar medicamentos, mas garantia de segurança é impossível, principalmente para drogas que alteram o delicado equilíbrio fisiológico como os derivados hormonais. Medicamentos são drogas desenvolvidas para tratar doenças e cabe ao médico avaliar se os males das doenças compensam os seus riscos. Na ausência de doenças ficam apenas os riscos. Riscos baixos não são considerados justificativas adequadas para a utilização de drogas por pessoas saudáveis. A prática médica é fundamentada na relação médico-paciente: utiliza da ciência, mas extrapola em muito a frieza da estatística. Quando ocorre um efeito colateral grave de medicamento, consola muito pouco saber que os riscos eram baixos. Em ocorrências desse tipo, se não houver o atenuante dos males das doenças que seriam combatidos, a situação será desoladora tanto para o médico quanto para o paciente. Um dos mandamentos básicos da medicina é Primum non nocere, Hipócrates, 466-370 AC.

Um aspecto que precisa ser discutido pelas associações médicas é que se os médicos não puderem orientar pessoas saudáveis no uso de anabolizantes, mantem-se o espaço para que leigos o façam, quase sempre de maneira inescrupulosa e inconsequente. Essa questão tem muitas implicações e cabe aos conselhos de bioética definir os limites da atuação dos médicos. No caso de atletas de competição existe um complicador que é o conceito de doping, situação na qual o médico não pode estar envolvido.

A minha tendência pessoal sempre foi de não valorizar o uso de anabolizantes por atletas, convencido de que esse não é o fator de diferenciação dos campeões em nenhuma modalidade esportiva. Um aspecto que muito me preocupa é a tendência atual de achar que o uso de anabolizantes faz parte da musculação. Essa situação prejudica muito a aceitação da modalidade pela sociedade, que já está começando a identificar em cada praticante com bom volume muscular um usuário de drogas. Mesmo sem considerar os riscos para a saúde, acho totalmente fora de qualquer sentido existencial incorporar como hábito a injeção periódica de drogas no organismo. Muitos adotam esse procedimento pensando ser possível evitar efeitos indesejáveis do envelhecimento, o que não é real. Os processos de degeneração dos organismos vivos são inevitáveis, assim como o seu desfecho final que é a morte.

A prática da musculação é tão apaixonante que há muitos anos se tornou um estilo de vida para milhões de pessoas em todo o mundo: desenvolver os músculos (bodybuilding) nos limites que a sua constituição genética permite, com alimentação adequada e hábitos de vida saudáveis. Um dos benefícios desse estilo de vida é atenuar efeitos do envelhecimento, dentro do permitido pela natureza. Cada fase da vida tem os seus atrativos e também os seus problemas. A felicidade em todas as idades depende de encarar a realidade com bom senso e serenidade.

* José Maria Santarem é doutor em medicina pela Universidade de São Paulo, fisiatra e reumatologista pela Associação Médica Brasileira, consultor científico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, coordenador de pós-graduação na Escola de Educação Permanente do HC-FMUSP, diretor do Instituto Biodelta, autor do livro Musculação em Todas as Idades (Ed. Manole) e coordenador do site acadêmico www.treinamentoresistido.com.br.

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