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TREINAMENTO EXCÊNTRICO COMO UMA NOVA ABORDAGEM PARA TENDINOPATIAS DO MANGUITO ROTADOR: REVISÃO E PERSPECTIVAS.

Paula R Camargo, Francisco Alburquerque-Sendín, Tania F Salvini.

 World J Orthop 2014 November 18; 5(5): 634-644 ISSN 2218-5836 (online)

COMENTÁRIOS – Prof. Dr. José Maria Santarem

Tendinites são processos inflamatórios dos tendões que podem produzir dores de diversas intensidades. As tendinites podem ocorrer em tendões saudáveis quando ocorrem esforços inadequados ou em intensidade ou em continuidade (esforços repetitivos). No entanto a ocorrência de tendinites aumenta quando os tendões apresentam processos de desgastes, conhecidos como tendinose e que são determinados geneticamente. Pessoas na faixa dos 30 anos já podem apresentar tendinoses, embora com o avançar da idade isso seja mais comum. Tendinopatia é um termo genérico para designar tendões com sinais de tendinose e/ou tendinites. A evolução natural das tendinopatias é a ruptura dos tendões, parcial ou total, muitas vezes sem que se identifiquem esforços desencadeantes.

Exercícios em geral têm sido usados com bons resultados para tratar tendinopatias em várias articulações. Esforços excessivos podem desencadear tendinites, mas esforços adequados parecem estimular a resolução dos processos inflamatórios e a vitalização (melhora da estrutura anatômica) dos tendões. A dor nas tendinites pode melhorar rapidamente com exercícios por mecanismos ainda não bem esclarecidos. Mecanismos vasoativos neuro-humorais e imunológicos estariam envolvidos no processo. Particularmente a contração excêntrica dos exercícios resistidos tem sido identificada como importante estímulo trófico para os tendões. Na contração excêntrica a carga (resistência) é maior do que a força gerada pela contração das fibras musculares. Assim sendo, apesar da contração para encurtar ocorre o alongamento do músculo, impondo maior estresse sobre o tecido conjuntivo. Por essa razão a contração excêntrica produz maior dor muscular tardia (inflamação considerada fisiológica) e estimula a proliferação do tecido conjuntivo muscular. Assim aumenta a elasticidade dos músculos e os tendões ficam mais fortes (hipertrofia do tendão).

No presente trabalho os autores se propõem a revisar a literatura sobre os efeitos e supostos mecanismos das contrações excêntricas nas tendinopatias do manguito rotador dos ombros, tendo em vista que nas tendinopatias patelar e do tendão de Aquiles existem muitas evidências de bons resultados terapêuticos.

Inicialmente revendo a estrutura dos tendões os autores esclarecem que a menor estrutura dos tendões são as fibrilas, compostas de moléculas de colágeno que podem deslizar umas sobre as outras. As fibrilas formam as fibras, que são recobertas por uma fina camada de tecido conjuntivo. As fibras formam feixes chamados fascículos que têm movimentos coordenados, mas independentes. Os fascículos são recobertos por camadas de tecido conjuntivo, assim como o próprio tendão. Vasos e nervos do tendão são provenientes da junção miotendínea e da junção osteotendínea.

O manguito rotador é formado pelos músculos supraespinal, infraespinal, sub-escapular e redondo menor. Os tendões desses músculos formam uma banda fibrosa que atua junto com a do tendão longo do bíceps e a capsula articular na sustentação do membro superior. Os autores descrevem com detalhes as diversas partes do tendão do m. supraespinal, chamando a atenção para as propriedades biomecânicas decorrentes. Também descrevem detalhadamente a composição molecular dos tendões do manguito rotador.

Com relação às lesões mais comuns, os autores referem o impacto do m. supra-espinal, que é a compressão do tendão pelo ligamento coracoacromial nas elevações do braço acima de 90 graus. Com relação à operação de descompressão do tendão do m. supraespinal os autores comentam que no pós-cirúrgico continuam ocorrendo apoptose (morte celular), alterações da vascularização, rompimentos de fibras e calcificações. Essas alterações degenerativas ocorrem em todos os componentes tendinosos do manguito rotador e costumam levar à rupturas parciais ou totais dos tendões. Em todos os tendões ocorrem alterações degenerativas que pioram com a idade e que podem evoluir para rupturas: tendão do m. supraespinal, tendão infrapatelar, tendão de Aquiles e tendões extensores do punho.

Abordando a relação dos esforços com a biologia dos tendões, os autores comentam que os tenócitos (células dos tendões) produzem o colágeno e participam dos processos de cura das lesões. A síntese de colágeno estimulada pelo stresse dos exercícios atinge o seu máximo em 24 após o término e perdura por três dias, tempo um pouco maior do que o necessário para a reparação das fibras musculares. Esforços muito frequentes parecem desencadear processos degenerativos dos tendões, provavelmente porque os processos de reparação não ocorrem de forma completa. No caso de rupturas parciais ocorre um processo de reparação, mas o tecido formado não tem as mesmas características morfológicas e funcionais dos tendões normais. Nota: pode-se levantar a hipótese de que assim como para um bom resultado em hipertrofia dos músculos, dois treinos semanais para cada grupo muscular sejam a máxima frequência compatível com o fortalecimento dos tendões.

Na abordagem terapêutica os autores comentam que medicamentos anti-inflamatórios e os corticoides podem ter efeito prejudicial na reparação dos tendões e devem ser utilizados apenas em breves períodos. A imobilização também predudica a regeneração e estimula os processos degenerativos. Ultra-som, laser e estimulação elétrica parecem ter discretos efeitos. Alongamento e carga são aspectos dos exercícios que parecem ter os melhores efeitos terapêuticos. A contração excêntrica dos exercícios resistidos tem sido identificada como muito eficiente para tratamento das tendinopatias em geral. As contrações excêntricas envolvem alongamento e carga. Os autores comentam que nas tendinoses ocorre diminuição da vascularização dos tendões, mas que nas tendinopatias dolorosas aumenta esse processo, nos pontos de maior dor, e que as contrações excêntricas diminuem esses vasos neoformados. Nota: esse mecanismo pode explicar a impressão de observação clínica no sentido de que os exercícios adequados parecem ter efeito anti-inflamatório e analgésico. Os autores comentam um trabalho em que 9 pessoas em fila de espera para cirurgia do ombro foram submetidos a exercícios resistidos com ênfase nas contrações excêntricas e ao final de 12 semanas, 5 pessoas estavam satisfeitas com os resultados e desistiram da operação. Os autores chamam a atenção para a diversidade de protocolos utilizados nos estudos sobre exercícios excêntricos e tendinopatias, sendo uma necessidade que futuros trabalhos abordem essa questão.

Nota: a nossa conduta pessoal é utilizar exercícios e protocolos habitualmente propostos em treinamento resistido para força e hipertrofia, com as devidas adaptações em cargas e amplitudes visando o conforto individual. No momento estamos coletando dados para publicações, comparando os efeitos de diferentes exercícios.

 

 

 Metodologia, tabelas, gráficos e bibliografia encontram-se no artigo original.

 

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