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A responsabilidade profissional nas informações
sobre atividade física para a população

Artigo publicado originalmente em Julho de 1997


Dr. José Maria Santarem *

Ao escrever trabalhos destinados à veículos de informação especializados, todo profissional bem formado sabe que as afirmações do texto devem estar fundamentadas na literatura científica internacional. No entanto, com alguma freqüência, bons e reconhecidos profissionais não observam este preceito técnico e ético quando se dirigem ao público leigo. Na área da atividade física, impressões pessoais e até mesmo preconceitos extra-universitários têm sido transmitidos à população em veículos informativos de grande circulação, com a justificativa de que são posições científicas. Deve ser lembrado que o adjetivo "científico" para uma afirmação somente pode ser aplicado quando existe coerência com trabalhos publicados na literatura especializada internacional, realizados com o rigor dos métodos de investigação experimental ou observacional. Tais métodos incluem sempre a análise estatística dos resultados, com testes de significância. Um raciocínio fisiológico ou fisiopatológico qualquer, que leva à alguma conclusão, por mais lógico que seja, constitui apenas uma hipótese teórica. As hipóteses devem ser testadas em protocolos práticos antes de permitir conclusões.

Particularmente com relação aos exercícios resistidos, temos encontrado em veículos de informação popular afirmações sem qualquer fundamentação verdadeiramente científica, atribuídas a respeitados profissionais. Com a devida ressalva de que muitas vezes as afirmações são mal interpretadas pelos entrevistadores, o resultado prático é um desserviço à comunidade. Parcelas consideráveis da população podem ser afastadas da atividade sem justificativa real, e os profissionais e empresas do setor sofrem prejuízos materiais.

Em 1995, o National Institutes of Health, o Centers for Disease Control and Prevention, e o American College of Sports Medicine realizaram congressos internacionais para a discussão de toda a literatura científica sobre atividade física. Com base nas publicações decorrentes desses encontros, e na literatura disponível, comentamos a seguir algumas afirmações sem base científica sobre atividade física, recentemente coletadas em revistas, jornais e televisão.

"Atividade física mínima é o ideal". O consenso estabelecido foi que atividade física suficiente para gastar pelo menos 200 Kcal. em média diária já é suficiente para diminuir acentuadamente o risco estatístico de desenvolvimento de doenças crônicas. No entanto, pessoas mais ativas apresentam risco ainda menor, pelo que a população deve ser estimulada a aumentar progressivamente o seu gasto calórico com atividade física, desde que respeitem a capacidade de recuperação do organismo.

"Exercícios aeróbios são mais saudáveis". Os trabalhos analisados levaram à conclusão de que os diversos tipos de atividade física apresentam os mesmos benefícios salutares, quaisquer que sejam as características do metabolismo energético e da contração muscular, diferindo apenas com relação ao tipo e ao grau de aptidão física desenvolvida. As evidências sugerem que até mesmo o desenvolvimento das doenças cardio-circulatórias é dificultado por atividades físicas que não melhoram o condicionamento aeróbio.

"A qualidade de vida é melhor estimulada pelos exercícios aeróbios". A força muscular e a flexibilidade foram identificadas como as qualidades de aptidão mais importantes para a qualidade de vida, entendida como a capacidade de realizar as tarefas da vida diária sem limitações de desempenho. No caso da força muscular, sua importância transcende as necessidades biomecânicas para a realização das atividades diárias, mas também é fundamental para a homeostase hemodinâmica nos esforços envolvidos, aliviando o estresse cárdio-circulatório.

"Os exercícios com pesos devem ser limitados a pessoas jovens e sadias". O NIH Consensus Statements afirma textualmente: "os exercícios com pesos são particularmente indicados para pessoas idosas e debilitadas". Isto se deve não apenas aos eficientes estímulos dos exercícios resistidos para a massa muscular, densidade óssea e flexibilidade, mas à alta segurança geral e cardiológica atualmente reconhecidas. Desde que se evitem as contrações isométricas com cargas máximas, a pressão arterial sobe dentro dos limites de segurança, e a freqüência cardíaca aumenta muito pouco, devido ao caráter interrompido da atividade. Pessoas idosas e enfraquecidas não devem ser estimuladas a caminhar antes de um programa para fortalecimento muscular, devido ao alto índice de quedas observados nessas condições.

"Os exercícios com pesos apresentam grande risco de lesões". As estatísticas demonstram que a incidência de lesões musculo-esqueléticas é muito baixa nos exercícios com pesos bem orientados. Lesões ocorrem em três situações particulares: treinamento não supervisionado, uso de equipamento mal projetado e cargas excessivas. Não apenas as cargas podem ser facilmente adaptadas à condição física individual, mas também as amplitudes dos movimentos e todos os outros fatores do treinamento. Não ocorrem mudanças de direção, acelerações e desacelerações bruscas dos movimentos, e o risco de quedas é mínimo.

"Os exercícios com pesos prejudicam o crescimento dos adolescentes". Muitos trabalhos foram realizados para esclarecer esta importante questão, e não foram evidenciados efeitos nocivos ao crescimento estatural ou à integridade das cartilagens articulares. Até mesmo crianças pré-puberes em treinamento com pesos foram estudadas, sem que se observassem quaisquer prejuízos para a saúde ou para a aptidão física. Ao contrário, evidências sugerem que o treinamento com pesos em crianças praticantes de esportes em geral pode diminuir o risco de lesões.

"O treinamento com pesos diminui a flexibilidade e a velocidade dos praticantes". Diversos trabalhos documentam os efeitos opostos à essas afirmações. Além disto, a experimentação empírica de atletas e treinadores de diversas modalidades esportivas também contraria essa hipótese. Lutadores, velocistas e muitos outros atletas, incluindo os dedicados à provas de longa duração, têm o seu desempenho sensivelmente favorecido pelo treinamento com pesos.

"Apenas os exercícios aeróbios favorecem a redução da gordura corporal". Não existem trabalhos científicos que justifiquem essa afirmação. Todos os livros clássicos de fisiologia e metabolismo esclarecem que qualquer tipo de exercício favorece o emagrecimento, por gastar calorias e ativar o metabolismo. Diversos trabalhos comparando exercícios aeróbios e anaeróbios documentam mobilização de gordura nos mesmos níveis. A explicação é que qualquer que sejam os substratos energéticos mobilizados durante a atividade física, a reposição dos seus depósitos é prioridade metabólica durante a alimentação subseqüente aos exercícios. Caso faltem calorias no balanço calórico diário, haverá mobilização do tecido adiposo. Em repouso.

"Exercícios com pesos produzem hipertensão arterial e prejudicam o coração". Os trabalhos científicos documentam redução da pressão arterial em repouso em pessoas treinadas com pesos, tal como ocorre com todas as outras formas de atividade física. Nunca se documentaram efeitos dos exercícios resistidos prejudiciais ao coração.

"Não é possível desenvolver grandes músculos sem drogas anabolizantes". Todas as pessoas pós-púberes conseguem aumentar a massa muscular, até mesmo mulheres nonagenárias. O grau de hipertrofia obtido depende basicamente de características genéticas favoráveis. Muitos indivíduos abusam de drogas anabolizantes na tentativa de superar genética desfavorável e não conseguem grande massa muscular. Por outro lado, é comum encontrarmos praticantes de musculação que não se dedicam às competições e que conseguiram grande massa muscular sem anabolizantes.

"Musculação de competição não é saudável". Caso essa afirmação seja motivada pelo uso de drogas, deve ser atribuída às competições de todas as modalidades esportivas.

"O desejo de aumentar a massa muscular é doentio". Comentários dispensáveis.

Para benefício de todos, esperamos que os profissionais avaliem melhor as suas declarações em veículos de comunicação popular.

* José Maria Santarem (CRM-SP 25.651) é doutor em medicina pela Universidade de São Paulo, fisiatra e reumatologista pela Associação Médica Brasileira, consultor científico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, diretor do Instituto Biodelta e coordenador do site acadêmico www.treinamentoresistido.com.br.

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