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Atualização em Exercícios Resistidos: Segurança Cardiovascular

Artigo publicado originalmente em novembro de 1998


Dr. José Maria Santarem *

O fato bem conhecido de que os exercícios com pesos podem induzir grande aumento de pressão arterial, e a imagem de um levantador de peso realizando uma prova com carga máxima, talvez expliquem o conceito que muitos profissionais de saúde ainda têm no sentido de que o treinamento com pesos seria uma atividade de alto risco cardiovascular. No entanto, a baixa incidência de acidentes cardiovasculares no treinamento com pesos, e o melhor conhecimento da fisiologia dos exercícios resistidos vieram trazer mais tranqüilidade para os profissionais atualizados. Para compreender o que ocorre com os exercícios resistidos, inicialmente é conveniente relembrar os principais mecanismos de acidentes cardiovasculares na atividade física: o aumento da pressão arterial e o aumento da freqüência cardíaca.

O aumento da pressão arterial pode levar ao rompimento de artérias fragilizadas por aneurismas congênitos ou adquiridos, aterosclerose, hipertensão arterial ou diabetes. O aumento da freqüência cardíaca caracteriza um aumento de demanda de oxigênio pelo miocárdio, que pode não ser suprida adequadamente por artérias coronárias parcialmente obstruídas. A isquemia resultante dessa desproporção entre oferta e demanda de oxigênio pode levar à angina, infarto, arritmias graves e parada cardíaca. Para avaliar o risco cardiovascular dos esforços físicos, seja por aumento de pressão arterial ou de freqüência cardíaca, costuma-se utilizar o chamado Duplo-Produto, parâmetro numérico dado pela multiplicação da freqüência cardíaca pela pressão arterial sistólica. O resultado pode ser dividido por 1.000 para que se tenha um número menor.

Nos exercícios contínuos, a freqüência cardíaca e a pressão arterial aumentam paralelamente com a intensidade do esforço, justificando a indicação dessa forma de atividade física em intensidade baixa para pessoas debilitadas por sedentarismo ou doenças. Como os exercícios contínuos em intensidades baixas ocorrem em metabolismo aeróbio, criou-se a hábito de afirmar que os exercícios aeróbios são os mais seguros. Todavia, esta afirmação não vale para os exercícios interrompidos como os exercícios com pesos. Neste tipo de atividade, o caráter localizado e resistido da contração muscular determina intensidades relativamente altas de esforço com metabolismo energético predominante anaeróbio, mas com demanda cardiovascular geralmente discreta. A pressão arterial sobe sempre um pouco mais do que nos exercícios contínuos, mas geralmente dentro dos limites de tolerância. Apenas com a ocorrência de cargas máximas que levem à apnéia e isometria, ocorrem grandes aumentos de pressão arterial. Normalmente os exercícios com pesos para não atletas são realizados de maneira isotônica, sem apnéia importante e interrompidos antes da isometria. Por outro lado, as repetições baixas que normalmente são utilizadas no treinamento com pesos produzem discreto aumento de freqüência cardíaca. Além disto, os intervalos para descanso muscular entre as séries fazem com que a freqüência cardíaca volte quase aos níveis de repouso antes de novo esforço.

Em resumo, os exercícios com pesos para não atletas produzem aumento um pouco maior da pressão arterial em relação aos exercícios contínuos, mas um aumento de freqüência cardíaca muito menor. Assim sendo, o Duplo-Produto dos exercícios com pesos costuma ser baixo, já tendo sido demonstrado que caminhar rápido em plano levemente inclinado produz maior sobrecarga cardiovascular do que o treinamento com pesos utilizando 80 % de carga máxima. Coronarianos que não tiveram qualquer sinal de isquemia em treinamento com pesos com 80 % de carga máxima apresentaram sinais ou sintomas em teste ergométrico sub-máximo em esteira. A explicação é que a freqüência cardíaca mais baixa no treinamento com pesos levou à menor demanda de oxigênio, e que a pressão arterial diastólica ligeiramente mais alta levou à uma maior oferta de sangue para o miocárdio. Essas reações cardiovasculares permitem que os exercícios com pesos sejam utilizados por pacientes com disfunção coronariana, disfunção contrátil ou distúrbios do ritmo cardíaco, evidentemente quando bem avaliados e acompanhados.

Um erro freqüente é imaginar que pesos leves são mais seguros. Com pesos mais leves se fazem mais repetições, o que aumenta a freqüência cardíaca e a pressão arterial, e além disto, se ao final da série ocorrer isometria e apnéia, a pressão arterial aumentará mais do aumentaria com mais peso e menos repetições. Em todo o mundo, a maioria dos pesquisadores que estudam os efeitos dos exercícios com pesos em pessoas idosas estão utilizando cerca de 80 % de carga máxima, para repetições entre seis e oito, evidentemente sem isometria e sem apnéia. Apenas para referência, útil para pessoas que não têm familiaridade com o treinamento com pesos, este nível de carga no exercício de "leg press" pode significar cerca de 50 quilos para pessoas idosas.

Numerosos trabalhos têm documentado a segurança músculo-esquelética e cardiovascular do treinamento com pesos não apenas para pessoas sadias mas também para pessoas debilitadas e que apresentam doenças. Esses conhecimentos associados aos importantes efeitos dos exercícios com pesos no aumento de massa óssea, aumento da massa muscular e aumento da mobilidade articular, têm levado à utilização cada vez maior desses exercícios em programas de reabilitação geriátrica.

 * José Maria Santarem (CRM-SP 25.651) é doutor em medicina pela Universidade de São Paulo, fisiatra e reumatologista pela Associação Médica Brasileira, consultor científico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, diretor do Instituto Biodelta e coordenador do site acadêmico www.treinamentoresistido.com.br.

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