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Atualização em Exercícios Resistidos:
exercícios com pesos e qualidade de vida

Artigo publicado originalmente em novembro de 1998


Dr. José Maria Santarem *

Entendemos por boa qualidade de vida, no sentido da aptidão física, a condição de poder realizar as atividades desejadas, do ponto de vista biomecânico e homeostático, e sem riscos para a integridade do organismo. Para tanto, contribuem condições neuro-musculares, ósteo-articulares, metabólicas e hemodinâmicas. Evidentemente, o grau de aptidão necessário para uma boa qualidade de vida depende das atividades pretendidas. Quando existe o desejo de realizar atividades intensas, prolongadas e freqüentes, os níveis de aptidão serão altos, muitas vezes não compatíveis com a idade da pessoa devido às limitações próprias do envelhecimento, ou com a presença de condições patológicas. Pessoas com pretensões esportivas devem buscar um programa de condicionamento físico designado especificamente para as necessidades de aptidão de sua modalidade, naturalmente adaptado para a sua idade e condições de saúde. Pessoas não dedicadas à esportes, mas que desejam aptidão necessária para os esforços da vida diária e do trabalho braçal, recreativo, doméstico ou profissional, também devem buscar um programa de exercícios progressivos para esses objetivos. No caso de pessoas idosas sedentárias, a qualidade de vida está muito relacionada com a independência funcional, pois a perda de aptidão produzida pela falta de atividade física pode comprometer gravemente a condição de viver sem depender de outras pessoas.

Dada a importância de intervenções objetivas, eficientes e seguras para preservar ou restaurar a qualidade de vida das populações geriátricas, diversos estudos foram realizados com o propósito de identificar as qualidades de aptidão mais importantes para esses objetivos. Identificou-se a força e a flexibilidade como as qualidades de aptidão mais importantes para a independência funcional, para a execução das tarefas mais comuns no dia a dia das pessoas e para o trabalho braçal em geral. Levantar e sentar, subir escadas, transportar objetos, utilizar ferramentas e utensílios diversos são exemplos de atividades em que força e mobilidade articular são importantes. Vestir as roupas e cuidar da higiene pessoal são tarefas muito prejudicadas pela falta de mobilidade nas diversas articulações. Em função de sua eficiência para o aprimoramento da força e da mobilidade articular, o treinamento com pesos foi bastante estudado, e hoje é considerado a intervenção mais adequada para pessoas debilitadas e idosas. Analisaremos nesta oportunidade os aspectos da eficiência e posteriormente os da segurança.

Do ponto de vista da aptidão física, o treinamento com pesos estimula o desenvolvimento da capacidade contrátil dos músculos esqueléticos, da sua capacidade metabólica, da flexibilidade articular, e de adaptações cardiovasculares necessárias para os esforços curtos repetidos e relativamente intensos. O desenvolvimento da força ocorre por aprimoramento neuro-muscular, na forma de recrutamento de unidades motoras, e também devido à hipertrofia dos músculos, estimulada em graus razoáveis até mesmo em nonagenários. O aprimoramento das capacidades contrátil e metabólica dos músculos esqueléticos, o aumento da vascularização muscular e da capacidade contrátil do coração induzidas pelo treinamento com pesos determinam aumento da resistência para os esforços mais comuns do trabalho e das atividades diárias. A flexibilidade é estimulada nas pessoas com limitações articulares pela ação dos exercícios com pesos no sentido de forçar os limites das amplitudes, e em todas as pessoas pela proliferação de tecido conjuntivo que acompanha a hipertrofia e torna os músculos mais elásticos. Não ocorre hipertonia em repouso ou encurtamento nos músculos treinados com pesos como às vezes se especula.

Se por um lado o aprimoramento da força e da flexibilidade tem evidente importância biomecânica, a homeostase hemodinâmica não tem os seus determinantes tão claros. Admite-se que as alterações perigosas da freqüência cardíaca e da pressão arterial apresentadas por idosos em esforços comuns da vida diária somente pode ser evitadas com o aumento da força muscular. O mecanismo envolvido é a relação direta existente entre o número de fibras musculares ativadas nas tarefas, a intensidade do esforço, e as repercussões hemodinâmicas. Quando uma pessoa aumenta sua força muscular passa a realizar tarefas específicas com menor número de fibras. Conseqüentemente diminui a intensidade do esforço e também as alterações de freqüência cardíaca e de pressão arterial. Este mecanismo não apenas está reconhecido em reabilitação geriátrica, como também está estimulando estudos sobre a utilização dos exercícios com pesos em reabilitação cardíaca. O objetivo da intervenção neste caso não é fortalecer o órgão, mas protegê-lo nos esforços da vida diária.

Em paralelo com os benefícios em aptidão para as tarefas da vida diária e do trabalho físico, o treinamento com pesos apresenta outros importantes efeitos do ponto de vista da saúde, principalmente para pessoas idosas. Como toda atividade física, diminui os fatores de risco para doenças crônicas em geral, incluindo a doença coronariana. O aumento da força muscular e da mobilidade articular podem ser decisivos para a preservação e reabilitação funcional de articulações com processos degenerativos ou inflamatórios crônicos. Os mesmo fatores são fundamentais para evitar quedas nas situações de desequilíbrio do corpo. Os efeitos profiláticos e terapêuticos em relação à osteoporose são os mais eficientes em comparação com qualquer outra forma de atividade física. Recentemente documentou-se que em relação à corrida e natação, apenas o treinamento com pesos pode evitar a sarcopenia do envelhecimento, cuja patogenia é o desaparecimento de fibras brancas, não estimuladas por atividades aeróbias. A preservação ou aumento da massa muscular durante o envelhecimento também tem efeitos metabólicos importantes como a ativação do metabolismo basal e aumento de tecido captador de glicose, com relevantes contribuições para o controle da gordura corporal e para a profilaxia ou tratamento do diabetes mellitus.

 * José Maria Santarem (CRM-SP 25.651) é doutor em medicina pela Universidade de São Paulo, fisiatra e reumatologista pela Associação Médica Brasileira, consultor científico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, diretor do Instituto Biodelta e coordenador do site acadêmico www.treinamentoresistido.com.br.

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