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Atualização em Exercícios Resistidos: Metabolismo Energético

Artigo publicado originalmente em novembro de 1998


Dr. José Maria Santarem *

A classificação dos exercícios físicos em aeróbios ou anaeróbios, pode levar à conceitos errôneos. Os exercícios aeróbios são realizados em estado estável ou seja, praticamente toda a energia necessária é produzida aeróbiamente. Todavia, nos exercícios "anaeróbios", a participação aeróbia pode ser grande. Considerando que nos exercícios aeróbios não se formam sub-produtos inibidores da contração muscular, como o ácido láctico da via anaeróbia, compreendemos porque o organismo sempre tenta realizar as atividades aeróbiamente. No entanto, a quantidade de oxigênio nos músculos no momento do esforço é o principal fator que determina a possibilidade ou não da utilização da via aeróbia. Nos esforços que gastam muitas calorias na unidade de tempo (esforços de alta intensidade), o oxigênio dos músculos é insuficiente para toda a produção energética, e a via anaeróbia é ativada desde o início. Acumula-se então o ácido láctico, que leva à fadiga mais ou menos precoce. Por essa razão, os esforços anaeróbios são interrompidos, exigindo intervalos de recuperação para a sua continuidade. Todavia, durante os esforços anaeróbios, o organismo sempre tenta ativar ao máximo a captação e transporte de oxigênio, por mecanismos reflexos e imediatos, para que a via aeróbia em atividade diminua a produção anaeróbia de ácido láctico. Por esse mecanismo, ficamos dispneicos e taquicárdicos após um esforço de alta intensidade (anaeróbio), mesmo quando o exercício é muito curto. No treinamento com pesos, os intervalos para descanso ocorrem após cerca de dez movimentos consecutivos, sendo razoável a participação aeróbia. No entanto, não há tempo de atividade suficiente para que a participação aeróbia seja máxima. Em esforços anaeróbios mais prolongados, como nas corridas de velocidade por exemplo, a duração maior do esforço permite que os mecanismos de captação e transporte de oxigênio sejam ativados plenamente, podendo ser atingido o VO2 máximo do indivíduo.

Nos exercícios aeróbios, em estado estável, os substratos energéticos utilizados inicialmente são a glicose e os ácidos graxos. Com a continuidade da atividade, ocorre diminuição da disponibilidade de glicose, aumentando a participação dos ácidos graxos e dos aminoácidos. O acúmulo de corpos cetônicos e de amônia leva à inibição da contração muscular, de maneira semelhante à que ocorre com o ácido láctico, explicando assim a fadiga muscular aeróbia, sempre acompanhada de graus variáveis de desidratação e hipoglicemia.

Nos exercícios anaeróbios, os substratos energéticos da via anaeróbia são a fosfocreatina e a glicose. A via aeróbia no entanto, utiliza basicamente a glicose e o ácido láctico. Assim sendo, o ácido láctico formado na via anaeróbia, é utilizado como substrato energético pela via aeróbia paralela. A oxidação é o principal mecanismo de eliminação do lactato durante o exercício.

A compreensão da integração das vias energéticas nos esforços pode levar à algumas considerações importantes. A comparação clássica da produção de ATP nas duas vias metabólicas, que demonstra "maior eficiência energética aeróbia" não tem aplicação prática, visto que a via anaeróbia é sempre continuada pela via aeróbia, sem ser uma alternativa. O estímulo à neo-formação capilar, o aumento das mitocôndrias, e o acúmulo de enzimas oxidativas, não ocorrem apenas nos exercícios em estado estável, acontecendo também nos exercícios "anaeróbios", em função da ativação aeróbia concomitante. A não utilização importante de ácidos graxos pelos exercícios anaeróbios não deve levar à conclusão de que tais exercícios não contribuem para a diminuição do tecido adiposo. Como veremos oportunamente, a redução da gordura corporal ocorre por um processo metabólico complexo, onde ocorre interconversão de nutrientes, sendo o balanço calórico negativo o aspecto fundamental.

BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA

Dudley GA. Metabolic consequences of resistive-type exercise. Med Sci Sports Exerc, 20 (5): S158-61, 1988.

Saltin B, Gollnick PD. Skeletal muscle adaptability: significance for metabolism and performance. Handbook of Physiology: Skeletal Muscle, Sec.10, Chap.19, p. 555-631, Bethesda, MD: American Physiological Society, USA, 1983.

 * José Maria Santarem (CRM-SP 25.651) é doutor em medicina pela Universidade de São Paulo, fisiatra e reumatologista pela Associação Médica Brasileira, consultor científico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, diretor do Instituto Biodelta e coordenador do site acadêmico www.treinamentoresistido.com.br.

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