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Atualização em Exercícios Resistidos:
O trabalho de força na criança

Artigo publicado originalmente em novembro de 1998


Dr. José Maria Santarem *

A primeira preocupação que este tema sugere é a segurança do praticante. Todos sabemos que o sistema locomotor imaturo não está preparado para grandes esforços, e que o processo de desenvolvimento geral do organismo pode ser afetado por atividade física extenuante. No entanto, outro aspecto a ser analizado, é a relevância dos possiveis benefícios do treinamento de força para a criança.

No que diz respeito à segurança, a literatura apresenta alguns trabalhos muito bem conduzidos que estudaram a criança em treinamento com pesos (Falk & Tenenbaum, 1996; Rians et al, 1987; Risser, 1990; Servedio et al, 1985; Sewall & Micheli, 1990; Webb, 1990). Os exercícios resistidos são os mais indicados para o treinamento de força, e dentre êles, os exercícios com pesos são os mais utilizados em todo o mundo. As barras e halteres constituem o equipamento convencional da ginástica com pesos e são os mais usados também para o treinamento de crianças, visto que os aparelhos mais elaborados são dimensionados para pessoas adultas. A conclusão geral da análise desses trabalhos é que os riscos para a saúde da criança são mínimos. Isto se deve a que os exercícios com pesos podem ser facilmente adaptados às necessidades de cada praticante. A imagem de uma criança com a respiração bloqueada empurrando um peso em contração muscular isométrica não existe no treinamento bem orientado. Os exercícios são isotônicos, os movimentos respiratórios são relativamente livres, as amplitudes dos exercícios adequadas à flexibilidade do praticante, e as cargas adequadas à força do indivíduo de tal maneira que várias repetições sejam possiveis antes da fadiga muscular. Também não existem acelerações e desacelerações violentas dos movimentos, não existem torções dos diversos seguimentos do corpo em exercício, e a possibilidade de choques entre praticantes e quedas é inexistente. Assim sendo, as sobrecargas sobre o aparelho locomotor são em nível de estímulo ao fortalecimento, com grande margem de segurança com relação aos níveis críticos para a integridade dos músculos, tendões, ligamentos, cartilagens e ossos. As hipóteses de que os exercícios com pesos poderiam esmagar ossos, lesar placas de crescimento e romper estruturas conjuntivas, provavelmente levantadas a partir de observações traumatológicas gerais, não foram confirmadas em trabalho científicos. As sobrecargas para o sistema cárdio-circulatório nos exercícios resistidos de alta intensidade são inferiores às dos exercícios contínuos de média intesidade, não havendo razões para imaginar efeitos indesejáveis para crianças em treinamento com pesos. Estudos com adolescentes hipertensos documentaram redução da pressão arterial de repouso. Um aspecto teóricamente favorável em relação ao treinamento com pesos para crianças é que os exercícios resistidos estão entre as atividades físicas que mais estimulam a liberação do hormônio do crescimento e hormônios gonadotrópicos pela hipófise. Como em todo tipo de exercício físico para crianças, é consensual a prudência com relação ao desgaste excessivo produzido por grandes volumes de treinamento, o que teóricamente poderia prejudicar o bom desenvolvimento do organismo.

Com relação aos possiveis benefícios do treinamento de força para crianças, algumas consideraçõe são importantes. Os exercícios com pesos são de grande utilidade para adultos, com objetivos diversos, entre êles: o aumento da massa muscular e redução da gordura com consequente modelagem do corpo; o aprimoramento do desempenho físico visando competições esportivas; o combate ao sedentarismo e consequente promoção da saúde geral; lazer e convivência social; exercícios terapêuticos para várias afeccões músculo-esqueléticas; reabilitação física. Poucos desses objetivos são comuns na infância. Embora a capacidade contrátil dos músculos seja bastante estimulada em crianças pelo treinamento com pesos, a massa muscular aumenta muito pouco. As crianças não devem ser estimuladas para competições esportivas e o sedentarismo não é frequente nessa faixa etária. Terapia física e reabilitação são situações particulares, e poucas crianças demonstram interêsse em praticar exercícios com pesos por lazer. Assim sendo, entendemos que embora o treinamento com pesos bem orientado seja bastante seguro para crianças, não existem razões para que o mesmo seja estimulado como conduta geral para a população infantil. No entanto, nos casos de terapia física, reabilitação e como opção de atividade física para crianças sedentárias e geralmente com personalidade introvertida, não há qualquer razão pela qual os exercícios com pesos não possam ser utilizados.

Referências bibliográficas:

Falk B, Tenenbaum G. The effectiveness of resistance training in children. A meta-analysis. Sports Med, 22:3, 176-86, 1996.

Rians CB, Weltman A, Cahill BR, et al. Strength training for pré-pubescent males: is it safe? Am J Sports Med, 15(5): 483-489,1987.

Risser WL. Musculoskeletal injuries caused by weight training - guidelines for prevention. Clinical Pediatrics, 29(6):305-310,1990.

Servedio FJ, Bartels RL, Hamlin RL. The effects of weigth training using Olimpic style lifts on various physiologic variables in pré-pubescent boys. Med Sci Sports Exerc, 17: 288, 1985.

Sewall L, Micheli LJ. Strength training for children J Pediatr Orthop, 6: 143-146, 1986.

Webb DR. Strength training in children and adolescents. Pediatri Clin North Am, 37(5):1187-1210, 1990.

 * José Maria Santarem (CRM-SP 25.651) é doutor em medicina pela Universidade de São Paulo, fisiatra e reumatologista pela Associação Médica Brasileira, consultor científico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, diretor do Instituto Biodelta e coordenador do site acadêmico www.treinamentoresistido.com.br.

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