66  Dano muscular e hipertrofia

Comentários: Prof. Dr. José Maria Santarem*

O desenvolvimento de hipertrofia dos músculos esqueléticos: o papel do dano muscular e da síntese proteica no músculo.

Felipe Damas · Cleiton A. Libardi · Carlos Ugrinowitsch

Artigo original:

The development of skeletal muscle hypertrophy through resistance training: the role of muscle damage and muscle protein synthesis

European Journal of Applied Physiology (2018) 118:485–500

https://doi.org/10.1007/s00421-017-3792-9

Neste excelente trabalho de revisão da literatura sobre o tema os autores abordam aspectos importantes para a compreensão do processo de hipertrofia dos músculos esqueléticos.

Inicialmente esclarecem que a síntese proteica miofibrilar é fundamental para o processo de hipertrofia do músculo esquelético, aumentando de forma importante após cada sessão de exercícios. No entanto, nas fases iniciais do treinamento, tem a finalidade maior de reparar o desgaste das miofibrilas, que é mais acentuado nessa fase. O aumento de volume dos músculos observado após as primeiras sessões de exercícios se deve principalmente ao edema do processo inflamatório em resposta à sobrecarga tensional para a qual os músculos ainda não estão adaptados. Com o progresso do treinamento o desgaste das fibras é menor a cada sessão de exercícios e a síntese proteica parece ser direcionada para a real hipertrofia muscular.

Os autores também apresentam evidências de que o dano muscular não parece ser necessário para o processo de hipertrofia a longo prazo, sugerindo que os protocolos de treinamento não sejam orientados para produzir desgaste acentuado, identificado por dor tardia após o treino. Neste contexto não endossam o clássico “no pain, no gain” da musculação.          Esclarecemos que esse conceito, popularizado por Arnold Scharzenegger, se referia originalmente à dor muscular por acidose ao final de algumas séries com repetições levadas próximo à falência muscular e não à dor tardia, indicativa de dano muscular. Um conceito técnico antigo é que a dor tardia não é um bom sinal, alertando para o excesso de volume do treino, sendo apenas aceita quando discreta, principalmente quando se utilizam novos exercícios.

Outro aspecto abordado pelos autores é o papel das células satélites no processo de hipertrofia muscular. Células tronco ou mesenquimais são células que podem se multiplicar e se diferenciar em vários tecidos, sendo muito estudadas para a finalidade de produzir novos tecidos para substituição em órgãos doentes. No músculo esquelético são chamadas de células satélites porque estão localizadas na periferia e ao longo das fibras musculares, logo abaixo da membrana celular. Neste trabalho evidências clássicas são revistas, no sentido de que as células satélites ativadas pela tensão muscular migram para o sarcoplasma dando origem a novos núcleos, o que é fundamental para aumentar a síntese proteica. Também é esclarecido que hipertrofia acentuada dos músculos apenas é observada quando o estímulo dos exercícios é eficaz em produzir aumento na quantidade de células satélites, o que não ocorre em todas as pessoas. Uma outra função das células satélites é abordada: a sua contribuição para a reorganização da matriz extracelular, desestruturada pela sobrecarga tensional. Esse fenômeno parece ser importante para o fortalecimento do tecido conjuntivo do ventre muscular e dos tendões.

Prof. Dr. José Maria Santarem*
Doutor em medicina pela Universidade de São Paulo, fisiatra e reumatologista pela Associação Médica Brasileira, consultor científico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, diretor do Instituto Biodelta e coordenador do site acadêmico www.treinamentoresistido.com.br.