67  Mecanismos e genética da hipertrofia muscular

Comentário: Prof. Dr. José Maria Santarem*

GRANDE HIPERTROFIA DE FIBRAS MUSCULARES DURANTE O TREINAMENTO RESISTIDO EM HUMANOS É ASSOCIADA COM ADIÇÃO DE MIONÚCLEOS MEDIADA PELAS CÉLULAS SATÉLITES: UM ANÁLISE DE CLUSTER.

Petrella JK, Kim J-S, Mayhew DL, Cross JM, Bamman MM.

Artigo original:

Potent myofiber hypertrophy during resistance training in humans is associated with satellite cell-mediated myonuclear addition: a cluster analysis

J Appl Physiol 104: 1736–1742, 2008.

First published April 24, 2008; doi:10.1152/japplphysiol.01215.2007.

Este clássico trabalho sobre o tema das hipertrofia muscular esclarece alguns aspectos do processo. Um deles é que a síntese de proteína miofibrilar aumenta imediatamente após uma sessão de treinamento resistido e permanece bastante aumentada por 48 horas. Este aspecto reforça o conceito clássico de treinar cada grupo muscular no máximo três vezes por semana, e evidentemente não se contrapõe a treinar cada grupo com menor frequência.

Outro aspecto esclarecido é que no início do processo de hipertrofia, que depende da atuação dos núcleos celulares, os núcleos existentes são suficientes para aumentar a síntese proteica. Quando ocorre aumentos acima de 25% na área das fibras musculares, observa-se que surgem novos núcleos nas fibras, o que parece ser necessário para que a hipertrofia continue aumentando. Esses novos núcleos são originados pela proliferação de células satélites, que migram para o interior das fibras.

Os autores comentam sobre um estudo realizado em seus laboratórios, no qual 66 pessoas foram treinadas para hipertrofia do quadríceps com um programa clássico de musculação durante quatro meses: três sessões semanais de agachamento, leg press e cadeira extensora, sendo três séries de 8 a 12 repetições em cada exercício, após aquecimento, com descanso de 1,5 minutos entre séries e evolução de carga por aproximação sucessiva. Essas pessoas estavam divididas entre homens e mulheres, jovens e idosos. Cerca de 25% das pessoas apresentaram aumento de 60% na área das fibras musculares e foram consideradas muito respondentes. Perto de 50% das pessoas apresentaram aumentos em torno de 30% na área das fibras sendo denominados medianamente respondentes. Outros 25% das pessoas apresentaram aumentos insignificantes na área das fibras, sendo denominados não-respondentes. Em todos os três grupos havia homens e mulheres, jovens e idosos. Assim sendo, deve-se notar que algumas mulheres idosas apresentaram mais hipertrofia do que alguns homens jovens.

Os autores observaram que as pessoas no grupo muito respondente tinham no início do treinamento um maior número de células satélites nas fibras musculares e que durante o treinamento ocorreu importante multiplicação dessas células e a formação de muitos novos núcleos, favorecendo a síntese proteica. O grupo não respondente tinha um número menor de células satélites no inicio do estudo e essas células não se diferenciaram em novos núcleos.

Outro aspecto é que os genes que comandam os processos de multiplicação das células satélites e de síntese proteica se mostraram muito ativados pelo treinamento no grupo muito respondente, pouco ativados no grupo medianamente respondente e não foram ativados no grupo não respondente. Agora ficou mais fácil entender o que significa ter boa genética para musculação.

Esses achados são muito importantes para a prática da musculação porque se puderem ser generalizados para a população como é esperado, apenas 25% das pessoas vão reagir bem ao treinamento para hipertrofia muscular. Assim sendo, não é possível garantir bons resultados para todas as pessoas. Com base no que se observa na musculação de competição, é razoável supor que apenas um pequeno percentual não conhecido dentre as pessoas tenha potencial genético para se tornarem campões.

Para quem treina para qualidade de vida, o grau de hipertrofia muscular obtido não é fundamental. A força muscular é a grande promotora de funcionalidade e aumentou em todos os grupos, embora mais nos grupos respondentes. No grupo não respondente para hipertrofia o aumento de força foi atribuído à melhora da coordenação neuromuscular.

Interessante observar que os autores levantam a hipótese de que os grupos não respondentes talvez pudessem ter melhores resultados se treinassem o quadríceps apenas duas vezes por semana. Alguns trabalhos mostraram melhores resultados com o treino de cada grupo muscular duas vezes por semana em relação a três. Na minha experiência pessoal, quando a pessoa não tem boa genética nada funciona. Por outro lado, quem reage bem progride com qualquer tipo de treinamento.

A musculação hoje se tornou um grande mercado onde são comercializados produtos como orientação de treinamento, suplementos alimentares e prescrição de drogas anabolizantes. Embora todos esses aspectos possam ter alguma influência nos resultados do treinamento, o grande diferencial entre campeões e praticantes comuns é a genética individual. Os grandes campeões de musculação sempre foram e sempre serão fenômenos genéticos.

Metodologia, tabelas, gráficos e bibliografia encontram-se no artigo original.

Prof. Dr. José Maria Santarem*
Doutor em medicina pela Universidade de São Paulo, fisiatra e reumatologista pela Associação Médica Brasileira, consultor científico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, diretor do Instituto Biodelta e coordenador do site acadêmico www.treinamentoresistido.com.br.