Ombros doloridos e musculação

A articulação do ombro é uma das articulações que mais sofrem com processos dolorosos no decorrer da vida, podendo acometer indivíduos em qualquer faixa de idade, principalmente a partir dos 30 anos, e depende do estilo de vida de cada um e principalmente da sua constituição genética. Atualmente o uso excessivo de recursos tecnológicos tem sido uma das causas mais frequentes de dor nessa articulação (citar referência).

Anatomicamente os tendões da articulação dos ombros são responsáveis por grandes e complexos movimentos e sofrem uma grande sobrecarga natural por conta da sustentação dos membros superiores, o que pode também justificar as causas comuns de dores nessa região.

As tendinites, que são processos inflamatórios nos tendões, podem produzir dores e acometer tanto tendões saudáveis quanto tendões que apresentam processos de desgastes, e normalmente são determinados geneticamente. Tendinopatia é um termo genérico para designar tendões anatomicamente comprometidos com desgastes, rupturas parciais ou totais e fibrosados. O manguito rotador, que compõe o conjunto de quatro importantes tendões dos ombros: supraespinhal, infraespinhal, longo do bíceps e redondo, são responsáveis pela estabilidade da articulação e pelos seus movimentos mais complexos, e normalmente são os mais afetados nos processos inflamatórios. Já as artroses de ombros, caracterizadas pelos desgastes nas articulações, são menos fraquentes, talvez se justifique pela menor sobrecarga de pressão nessa região.

Na prática esportiva os ombros podem sofrer sobrecargas excessivamente frequentes ou inadequadas levando às tendinites. Um outro aspecto importante é que sedentários também podem ter essas mesmas sensações por conta das fragilidades articulares e enfraquecimento muscular, mesmo com pequenas sobrecargas, e não controladas adequadamente . Nas modalidades esportivas controlar as sobrecargas nem sempre pode ser uma tarefa fácil porque os próprios movimentos geram torções, trações e impactos nas articulações, inerentes ao próprio gesto motor.

Uma das modalidades que tem sido amplamente estudada nas suas aplicações terapêuticas e preventivas para dores musculoesqueléticas é a musculação, academicamente conhecida como treinamento resistido. Trabalhos recentes mostram os benefícios do fortalecimento muscular no tratamento de dores específicas na articulação dos ombros (citar referência).

Muitos médicos têm reconhecido a importância do fortalecimento muscular e têm recomendado a sua prática. Aspecto importante a destacar é a montagem do programa com a seleção adequada de exercícios e adequação das sobrecargas (amplitude, cargas, velocidades, repetições e intervalos), que no caso da musculação é facilmente alcançada com o conhecimento profissional prévio em treinamento e doenças/lesões musculoesqueléticas.

O fortalecimento muscular diminui as sobrecargas nos tendões nas atividades de vida diária, diminuindo o quadro de dor e pode também melhorar o desempenho esportivo. Indivíduos com histórico de tendinopatia podem ter suas atividades de vida diária normalizadas, mesmo que a sua constituição anatômica já não tenha a mesma integridade, mas devem ficar atentos à prática ou ao retorno de atividades esportivas que normalmente sobrecarregam as articulações e provocam dores. Casos de indicação cirúrgica por problemas em tendões e articulações de um modo geral podem ser protelados ou até evitados com o fortalecimento muscular. Os efeitos tróficos do treinamento resistido, como aumento da massa muscular, hipertrofia dos tendões e melhora da cápsula articular minimizam as sobrecargas e melhoram a qualidade dos movimentos articulares. Fora isso, a produção de substâncias antiinflamatórias, conhecidas como miocinas, liberadas na contração muscular durante os exercícios podem contribuir para diminuir os processos inflamatórios, e segundo estudos cientïficos, o treinamento resistido é o exercício mais eficiente na produção dessas substâncias, (citar referência).

Outro aspecto do treinamento que tem sido estudadoe com muita relevância é a velocidade dos movimentos dos exercícios. A fase da contração excêntrica, fase em que o peso vence o movimento, tem sido comprovada como principal fase do exercício na sua relação com a remoção de processos inflamatórios, por essa razão a orientação para que o movimento lento (2 a 4 segundos) seja enfatizado deveria ser recomendada pelos profissionais. As articulações que não toleram grandes amplitudes por conta de processos dolorosos também devem ter seus movimentos lentos enfatizados, mesmo que sejam super curtos, adaptados pelo conforto.

Na montagem do programa de treinamento, os exercícios básicos da musculação devem fazer parte do programa, como press peitoral ou supino e as remadas. Esses dois exercícios serão os mais importantes no fortalecimento geral da articulação dos ombros, mas devem ter suas amplitudes adaptadas para o conforto. Em geral as grandes abduções e flexões nas articulações dos ombros costumam provocar dores, por essa razão as puxadas, os supinos inclinados, os crucifixos e as elevações frontais e laterais devem ser evitadas inicialmente.

Exercícios complementares podem entrar no programa de treino como o desenvolvimento de ombros com barra, também com amplitude curta ou parcial. O exercício de encolhimento de ombros, embora enfatize o trabalho muscular do trapézio, trabalha o manguito rotador em isometria e pode contribuir para a melhora da dor. Na evolução do treino as cargas devem ser evoluídas e o aumento das amplitudes pode ser experimentado, embora em muitos casos ela possa não ser tolerada, dependendo do comprometimento. Nesses casos as amplitudes não devem ser forçadas, mas a evolução de cargas podem e devem progredir, sempre dentro dos limites de cada indivíduo.

A inclusão de exercícios que induzam à grandes amplitudes articulares vai depender da evolução de cada caso e do quanto existe ou não comprometimento na constituição dos tendões. Os profissionais de Educação Física precisam ter conhecimento em doenças e lesões e as suas possíveis limitações no treinamento para o bom acompanhamento de pessoas que possam apresentar dores durante a prática da musculação ou que são indicadas por médicos para a sua recuperação.

*Sandra Nunes de Jesus – formada em Educação Física e Pedagogia; especialista em treinamento resistido na saúde, na doença e no envelhecimento pela FMUSP desde 2002, e atualmente coordenadora do Instituto Biodelta e do modelo de Licenciamento da Biodelta Metodologia.

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