Exercícios Terapêuticos – Por que Musculação?

Dr. José Maria Santarem*

Exercícios resistidos utilizados com objetivos de fisioterapia podem ser chamados de musculação terapêutica. A forma de resistência para os movimentos mais utilizada em exercícios resistidos são os pesos em função de praticidade e baixo custo. A prática dos exercícios com pesos recebe o nome de musculação devido ao seu reconhecido efeito de estímulo para aumento da massa muscular. Atualmente existe a tendência de utilizar a musculação com finalidades terapêuticas devido à eficiência e à segurança.

Para que algum tipo de exercício seja adequado para finalidades terapêuticas, tanto para doenças musculoesqueléticas como para doenças sistêmicas e fragilidade, as necessidades em eficiência e segurança precisam ser atendidas. No aspecto da eficiência a musculação é o tipo de exercício que apresenta o melhor conjunto de efeitos:

Força – A musculação com pesos é reconhecidamente o tipo de exercício mais eficiente para aumentar a força muscular. A força precisa aumentar para estabilizar as articulações aliviando dores e permitindo função confortável; além disso, a força aumentada permite que os esforços da vida diária sejam realizados com menor recrutamento de fibras e consequentemente menores elevações da frequência cardíaca e da pressão arterial, diminuindo a intensidade dos esforços da vida diária. A força muscular também é importante para caminhar porque permite que essa atividade seja aeróbica. Pessoas fracas caminham recrutando muitas fibras e o esforço passa a ser anaeróbio, com fadiga precoce. O limiar anaeróbio corresponde a cerca de 30 a 40 % das fibras em atividade.

Potência – A força aplicada rapidamente recebe o nome de potência. Movimentos rápidos não podem ser terapêuticos porque são agressivos para articulações fragilizadas. No entanto, os movimentos lentos da musculação tradicional que aumentam a força são seguros e aumentam também a potência, de tal forma que as pessoas possam utilizar essa aptidão quando for necessária, como por exemplo, para recuperar o equilíbrio e evitar quedas.

Resistência – A capacidade de prolongar esforços recebe o nome de resistência. O tipo de resistência que todos precisamos para o trabalho braçal e para algumas atividades da vida diária é a chamada resistência muscular localizada, muito estimulada pela musculação. A resistência para prolongar esforços como correr, pedalar ou nadar exige a prática dessas atividades de forma contínua, o que extrapola o campo de atuação dos exercícios terapêuticos.

Coordenação – A coordenação adequada dos movimentos é fundamental para a funcionalidade. Os exercícios da musculação são particularmente eficientes para a coordenação por serem lentos, realizados nas maiores amplitudes possíveis respeitadas as limitações, e por utilizarem os movimentos funcionais da vida diária como empurrar e puxar, com os braços e com as pernas, estabilizando o tronco. Mesmo no caso de doenças neurológicas com hipertonia a musculação tem se mostrado o mais eficiente estímulo à funcionalidade geral, sem piora da espasticidade ou rigidez.
todas as faixas etárias e tende a ser indicada como atividade física de base para todas as pessoas.

Flexibilidade – A falta de movimento diminui as amplitudes articulares podendo prejudicar a funcionalidade para a vida diária. Para aumentar a flexibilidade das articulações os exercícios precisam forçar os limites das amplitudes, mas respeitando as limitações por deformidade anatômica patológica ou dores. Na musculação essa necessidade é facilmente atendida. Na ausência de dores ou deformidades, a musculação aumenta a flexibilidade até níveis bem superiores aos necessários para a vida diária. Apenas para objetivos atléticos são necessários exercícios específicos de alongamento para flexibilidade.

Alongamento – O alongamento dos músculos e das articulações é necessário para aumentar a flexibilidade e ocorre na musculação embora não em graus máximos. O alongamento máximo das articulações, utilizado na preparação esportiva, tem o inconveniente de piorar a estabilidade, favorecendo lesões. No caso de doenças articulares o alongamento máximo das articulações provoca dores imediatas e piora dores cinéticas por agravar a instabilidade. Por outro lado, o alongamento muscular é importante para aliviar dores de diversas origens. A musculação é o mais eficiente estímulo para o alongamento muscular devido aos efeitos da contração excêntrica resistida sobre a elasticidade e proliferação do tecido conjuntivo do músculo esquelético. Esses efeitos ocorrem mesmo quando não é possível alongar muito as articulações.

Massa muscular – O aumento da massa muscular tem sido reconhecido como importante para a saúde por várias razões: aumenta o metabolismo basal, modifica o perfil hormonal para o lado do anabolismo (construção de tecidos), favorece o controle da glicose sanguínea e a redução da gordura corporal, além de proteger as articulações devido ao aumento paralelo da força. A musculação é o mais eficiente exercício para estimular o aumento da massa muscular.

Massa óssea – A perda de massa óssea ocorre no envelhecimento, no sedentarismo, nas imobilizações, em muitas doenças crônicas, na má nutrição e como efeito de medicação. Embora com grande influência da constituição genética, exercícios estimulam o aumento da massa óssea quando comprimem o esqueleto. Uma das formas de compressão óssea é o impacto, que é a desaceleração brusca do corpo em movimento, como nos saltos. O impacto é também um importante fator de lesão para as articulações. A outra forma de compressão dos ossos é o suporte de pesos, como o peso corporal ou os pesos utilizados em exercícios. A musculação e os saltos são os mais eficientes exercícios para aumentar a massa óssea, mas os grandes impactos dos saltos impedem a sua aplicação terapêutica.

Massa adiposa – A redução da gordura corporal é importante para melhorar condições basais para a saúde: diminui a resistência à insulina, melhora o perfil lipídico do sangue, reduz a pressão arterial, favorece um bom perfil hormonal, alivia o trabalho cardíaco e diminui a sobrecarga nos esforços. A musculação é atualmente reconhecida como muito eficiente para estimular a redução da gordura corporal não apenas por gastar calorias, mas por aumentar a massa muscular e consequentemente o metabolismo basal, e por estimular um perfil hormonal adequado.

A segurança é uma qualidade fundamental para exercícios terapêuticos, visto que a sua aplicação ocorre em situações de saúde comprometida e muitas vezes fragilidade. A musculação apresenta alto grau de segurança, tanto cardiovascular quanto musculoesquelética. No aspecto articular a segurança decorre do controle e adequação individual de todos os fatores de sobrecarga para o aparelho locomotor: os aparelhos colocam o corpo nas posições mais adequadas para os exercícios; as amplitudes dos movimentos são definidas para respeitar dores e limitações; a velocidade dos movimentos é baixa, sem acelerações e desacelerações bruscas; as cargas são definidas de acordo com a força de cada grupo muscular; as repetições habituais são confortáveis e podem ser muita baixas na situação de fraqueza acentuada; o número de movimentos totais é pequeno e a duração das sessões habitualmente curta, assim como as suas frequências semanais.

A segurança cardiológica é grande nos métodos de treinamento da musculação tradicional, recomendados como os mais eficientes também para fisioterapia e reabilitação. Mesmo com pesos que produzem dificuldade eficiente para os movimentos o grau de esforço pode ser adequado para as condições individuais; a frequência cardíaca não aumenta muito e a pressão diastólica um pouco mais alta garante maior oferta de sangue para o miocárdio. A incidência de arritmia ou isquemia na musculação é muito baixa, mesmo em cardiopatas. A dispnéia em cardiopatas e pneumopatas é facilmente controlada com baixas repetições e intervalos mais longos entre séries.

Em resumo, a situação atual do conhecimento sugere que os exercícios resistidos com pesos sejam a mais eficiente e segura forma de exercício terapêutico, recebendo o nome de musculação terapêutica.

Referências bibliográficas em www.treinamentoresistido.com.br

 

* José Maria Santarem é doutor em medicina pela Universidade de São Paulo, fisiatra e reumatologista pela Associação Médica Brasileira, consultor científico da Sociedade Brasileira de Medicina do Exercício e do Esporte, coordenador de pós-graduação na Escola de Educação Permanente do HC-FMUSP, diretor do Instituto Biodelta, autor do livro Musculação em Todas as Idades (Ed. Manole) e coordenador do site acadêmico www.treinamentoresistido.com.br.

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